Resenha: Medaka Box, extrapolando os limites de um mangá shonen

turminhaepicaMedaka Box começou a ser publicado em 2009 na revista Shonen Jump. O trabalho foi a estreia de NisiOisiN, o famoso autor da série Monogatari, na área dos mangás (descontando one-shots), desta vez usando o seu verdadeiro nome: Ishin Nishio. O traço ficou por conta de Akira Akatsuki, que até então só havia trabalhado com hentais. O resultado dessa combinação entre o roteiro de um escritor consagrado e a arte de um desenhista obscuro pode ser chamado desde “acertado” a “uma das leituras obrigatórias entre os mangás desta década“.

Um começo despretensioso

Medaka aceitará os pedidos de ajuda de qualquer um que seja.

Medaka aceitará os pedidos de ajuda de qualquer um que seja.

Medaka Box começou com uma premissa simples: a presidência do conselho estudantil do colégio Hakoniwa havia sido recém-assumida por Medaka Kurokami. Inteligente, popular, rica, atlética e fisicamente atraente, ela era tão ou mais perfeita quanto um ser humano pode ser. Logo em seu primeiro discurso como presidente, Medaka declara que resolveria qualquer problema dos estudantes que fosse escrito e depositado em uma caixa de sugestões. O segundo protagonista é Zenkichi Hitoyoshi, um amigo de infância de Medaka que sempre participa de suas atividades a contragosto. Na verdade, ele se sente um protetor de Medaka, pois o comportamento exageradamente honesto desta faz com que ela tenha uma personalidade ingênua demais.

A rotina “Medaka ajuda os estudantes do colégio com o apoio de um Zenkichi contrariado” se manteve por pouco tempo, pois o mangá não estava caindo no gosto dos leitores da Shonen Jump. Uma possível explicação para isso seria o fato de Sket Dance, de Kenta Shinohara, manter uma premissa parecida na mesma revista com muito mais competência.

“Faça alguma coisa estranha comigo”

Oudo

Oudo Miyakonojou, o primeiro grande vilão

A mudança que resolveria temporariamente os problemas de popularidade de Medaka Box veio na forma de alteração de gênero para mangá de ação: foi revelado que os múltiplos talentos de Medaka eram devidos ao fato de ela ser uma anormal, e logo surgiram anormais de talentos similares para servirem de inimigos para a presidente do conselho estudantil e seu amigo Zenkichi.

É neste ponto que Nisioisin começa de verdade a usar no mangá a sua capacidade de criar situações e personagens absurdos (com ênfase em “personagens”). Paradoxalmente, o leitor fica com uma inevitável impressão de que tudo faz bastante sentido interno, ainda que todo o enredo funcione na base do “aceite-as-coisas-como-estão-e-não-pergunte-o-porquê”. E não parou por aí.

Menor que, diferente de

Kumagawa: "Já estava todo mundo sangrando quando eu cheguei."

Kumagawa: “Já estava todo mundo sangrando quando eu cheguei.”

Imediatamente depois do fim do arco dos anormais, somos apresentados a Misogi Kumagawa, um antigo colega de escola de Medaka e Zenkichi. Cínico, derrotista e imprevisível, Kumagawa foi um esplêndido vilão, liderando um grupo de estudantes que, ao contrário dos anormais, possuíam poderes que os tornavam repulsivos, como o de fazer apodrecer objetos com o toque. Os minus, como eram chamados, foram os inimigos em um dos arcos mais memoráveis do mangá, mas nenhum deles foi tão memorável quanto o seu líder. Kumagawa formava um contraste incrível com a sempre honesta e otimista Medaka, e acabou ganhando todos as enquetes de popularidade da série com uma grande vantagem.

Nisio Isin parecia não ver limites para o desenvolvimento do mangá, mesmo depois de algo como o arco dos minus. Para suceder esse arco, foi introduzida uma nova personagem, chamada Najimi Ajimu. Anshin’in, como era conhecida, possuía um conhecimento absurdo sobre o funcionamento de um mangá, e, por isso mesmo, resolveu ir contra os métodos comuns dos vilões e usar uma abordagem diferente: como Medaka era a protagonista e protagonistas são invencíveis, Anshin’in esperaria até que a presidente se formasse e saísse da escola para então colocar os seus planos em ação.

Isso obriga Medaka a treinar novas estudantes para serem suas sucessoras na presidência do conselho estudantil. As candidatas a sucessora eram todas bem diferentes, indo de uma guerreira mágica até uma garota-robô desenvolvida na França. Ainda assim, a grande estrela desse arco é Anshin’in, principalmente depois que ficamos sabendo que ela tinha a intenção de fazer o próprio mangá acabar antes que o anime da série, recém-anunciado, começasse a ser transmitido. E essas maluquices que surgem no meio desse arco só fazem com que o leitor fique mais ansioso ainda para ver as próximas ideias bizarras que serão usadas na série.

Ashinin

“É díficil parar a vida, assim como uma serialização semanal.”

Concluindo, ou não

Medaka Box é um mangá diferente de tudo o que já foi feito. A comédia bobinha dos primeiros capítulos dá lugar um mangá de lutas, que dá lugar a um mangá metalinguístico, que finalmente dá lugar a mangá que leva as convenções dos mangás shonen aos níveis mais absurdos e ridículos possíveis, encerrando com uma boa metáfora sobre a adolescência e a vida escolar. E os autores só podem ser elogiados por isso. O resultado é mais que satisfatório para o leitor que estiver disposto a encarar uma leitura que foge dos padrões ao mesmo tempo que os usa da maneira mais exagerada imaginável. Pois mesmo que o mangá não caia no gosto do leitor, este não vai poder negar o valor do mangá como uma peça única e de boa qualidade.

"O mundo é pacífico demais? O futuro te atormenta? A realidade é sua inimiga? Não se preocupe. Mesmo que seja... A vida é épica!"

“O mundo é pacífico demais? O futuro te atormenta? A realidade é sua inimiga? Não se preocupe. Mesmo que seja… A vida é épica!”

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8 comentários em “Resenha: Medaka Box, extrapolando os limites de um mangá shonen

  1. Gostei da resenha.Adoro Medaka porquê ele subverte com maestria os famos clichês de amizade,perseverança e vitória,que todo o autor que ingressa já fica preso a tais regras na hora de desenvolver o mangá.Não sei se ele adquiriu certa lierdade orser um romancista famoso,mas nos deu algo diferente do convencional,com metalinguagem,filosofia,e a quebra da quarta parede.
    Infelizmente a Jump trabalha com popularidade,então quem agrada mais é que se dá bem e um mangá não convencional como esse só faz sucesso com um púlico restrito.

  2. Uma resenha plenamente satisfatória. Medaka foi uma série despretensiosa que era puro divertimento com suas metalinguagens infinitas e com seus personagens absurdos. Vai deixar certa saudade. heh

  3. Como resenha, e principalmente como introdução ao material, o texto ficou ótimo. Mas, acredito que a dimensão de Medaka Box é muito maior. A verdade é: Medaka Box não faz nenhum sentido como entretenimento empírico. Nenhum. Ler Medaka Box como uma história ficcional é a maneira errada de ler a série. Medaka Box é uma viagem de metalinguagem (e ácido, muito ácido), sendo um material muito mais rico que Bakuman nesse sentido, pois enquanto este é mais teórico, Medaka Box parte pro prático. Segue minhas opiniões com spoilers:

    A começar pelo que o texto mesmo fala, que o mangá teve que mudar de gênero (várias vezes, diga-se) para se adequar ao gosto do público. O arco dos Abnormals até passou despercebido, mas no arco dos Minus, Nisio Isin usava Kumagawa para descarregar todas as suas agulhadas às decisões editoriais da Jump.

    No arco dos Not Equal isso atingiu seu ápice. Não apenas como o já citado ultimato de terminar o mangá antes do anime estrear (que não faz mais sentido NENHUM pra quem não leu a série semanalmente), ela ainda declara abertamente que mudou o gênero do mangá de novo (para comédia-romântica), e dá o poder mais genial de todos ao Zenkichi, o Devil Style. No mangá, foi dito que a habilidade destruia coincidências, mas na verdade ela destrói CLICHÊS. Todos os clichês que estão se tornando o câncer do shonen atualmente. O discurso dos candidatos à presidência do Conselho Estudantil no final do arco, capítulo 138, foi o melhor momento do mangá todo:

    – No discurso das Not Equals: Não apenas pela primeira vez escancaram o ridículo do roteiro do mangá, como por exemplo ter alunos que destroem a escola com superpoderes e os professores não tomam atitude como também falam que a escola é regida pela elite que intima os menos afortunados, exatamente como a Shonen Jump faz, segregando os mangás baseados em voto popular;

    – No discurso do Zenkichi: Ele critica os estudantes por usarem a Caixa de Sugestões demais. Isso só significa que nenhum deles tem capacidade de resolver seus próprios problemas. Se traçarmos um paralelo com o público otaku (principalmente do japão), vemos como este público está acomodado. Sempre consumindo as mesmas coisas, se afundando em sua zona de conforto. Sempre buscando suas garotas 2D perfeitinhas e irreias porque tem medo de encarar a realidade de frente. Foi justamente esse público acomodado que forçou Medaka Box a mudar de gênero, simplesmente porque formou-se uma convenção de que apenas mangás de luta fazem sucesso na Shonen Jump

    – O discurso da Medaka é inútil, ignorem. 😛

    Quem puder, releia o capítulo e pense no público das arquibancadas da Academia Hakoniwa como o público leitor de mangás. O teor muda totalmente.

    Depois do arco dos Not Equal, Nisio Isin empurrou o mangá com a barriga e transformou-o numa sátira dele mesmo. O nível de absurdo estava tão grande a essa altura que ele descaradamente bota um Deus ex Machina no roteiro, fazendo todos os vilões da nova temporada do anime que ia estrear aparecerem no mangá do nada. Mesmo que o próprio grupo da Medaka tenha tido dificuldade de chegar no vilarejo SECRETO e ter acabado de descobrir o vilão SECRETO que eles guardavam, os Anormais (Oudo e cia.) conseguem chegar e ainda deter o vilão sem grandes problemas. É simplesmente o departamento de marketing gritando no ouvido do autor “dane-se a lógica, só faça promoção do anime!”.

    Nos capítulos finais, não chegam nem a mostrar as lutas da Medaka, justamente por já ter estabelecido a essa altura que ela é simplesmente invencível e que qualquer disputa que ela entrar o leitor já sabe que ela vai ganhar. Mostrar COMO ela ganha parece perda de tempo. Além disso, no último capítulo o autor insinua que os poderes de Medaka Box são uma metáfora para a imaginação: todos os personagens perdem seus poderes quando chegam a “vida adulta”, alguns mais cedo, outros mais tarde. E alguns nem perdem, que são justamente os mais desajustados e não-inseridos na sociedade. É como se o impossível e o fantástico fossem uma característica apenas da infância e da adolescência, e quando nos tornamos adultos a realidade nos enrijece. “Um adulto criativo é uma criança que sobreviveu”, como dizem.

    Enfim, tudo isso foi pra dizer que Medaka Box não foi uma obra contida em si mesma. Ela foi uma experiência que usou o próprio mundo fora de si (o mundo do leitor) pra formar seu universo. Quem for ler (que, repito, não aconselho, pois o mangá não faz mais sentido agora que terminou) deve sempre manter a mente aberta para essas metáforas que o autor faz. E pensar que se Medaka Box fosse publicado em qualquer outra revista, seria simplesmente um Sket Dance com mais ecchi…

    • Sim, claro, mas logo na preparação para o torneio de artes marciais, o que autor faz? Introduz um rival baixinho, careca e sem nariz. Sem falar no torneio seguinte, em que surge um careca de três olhos e um menino que parece ser um palhaço.

  4. Pingback: Medaka Box | All Fiction

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