Análise: GEN da Editora Abril

Já está nas bancas a primeira edição da antologia Gen, lançada pela editora Abril. O lançamento pegou a todos de surpresa, tanto pelo fato de  a editora já ter desistido dos mangás uma vez quanto pelo fato de o título que ela escolheu para fazer seu retorno ser totalmente desconhecido.

A tentativa anterior

A respeito de quando a Abril lançou Medabots, em 2002, é inegável que havia uma forte justificativa para a escolha do título: o anime de Medabots gozava de grande popularidade, devido à exibição na Fox Kids e na Rede Globo. Porém, ela pecou num ponto fatal: o mangá não tinha metade do carisma do anime, o que fez com que o público reagisse mal a ponto de o cancelamento chegar após a publicação de apenas 5 volumes. A culpa não pode ter sido do mercado de mangás, pois, se ele não tivesse força na época, a editora nem teria se lançado nesse meio. De quem foi a culpa, então?

A apresentação de Gen


Logo na capa de Gen, vemos o seguinte texto: “Mangá Alternativo do Underground de Tokyo (sic)”. Considerando-se que as séries contidas não devem nada às convenções mainstream, tanto no traço como na narrativa, a frase provavelmente se refere à falta de informações disponíveis sobre o título. Seria possível acrescentar “E é por isso que você nunca ouviu falar deste mangá” sem acréscimo de pedância. Ainda na capa, em destaque, há uma bela ilustração de Yousuke Abe, que estranhamente não assina nenhuma das séries na revista. A contra-capa, ousadamente, é diferente da capa, mas contém apenas um texto dizendo o quanto as séries apresentadas são “diferentes” e “surpreendentes”.
O clássico lembrete de sentido de leitura oriental está presente, interessantemente, nas primeiras páginas. Nas últimas páginas, consta que o número 2 de Gen deve sair no final de setembro.
O produto em si tem uma aparência frágil. A capa parece poder ser danificada ao menor descuido. As folhas porém são suficientemente brancas. Este que vos escreve experimentou abrir o mangá em ângulos perigosos, mas as folhas não deram sinal de cair.

As séries

A série que abre o número 1 de Gen é Wolf, de Nakamura Shige. A história começa com um falso protagonista, Shota, um pacato aspirante a lutador de sumô, que encontra o protagonista verdadeiro, Naoto, um lutador de rua. Naoto foi criado por sua mãe depois que seu pai saiu de casa, e agora quer se vingar de seu pai por ter feito sua mãe sofrer. O primeiro capítulo encerra sem deixar muito claro se Shota serviu apenas para apresentar Naoto ao leitor, mas, dadas as circunstâncias, ele provavelmente continuará como personagem secundário.
A segunda série apresentada é Vs. Aliens, de Suzuki Yu. Nesta história escolar, Kitaro é avisado por Aya, uma colega com ar de lunática, que a estudante mais popular da escola, Sana Sakuma, pode ser um alien. Kitaro obviamente não leva a história a sério, até que uma sequência de eventos faz com que ele se torne amigo de Sana. Por algum motivo, talvez espectativas por parte da editora, Vs. Aliens teve três capítulos publicados no número 1 de Gen.

A terceira série é Kamen, de Mihara Gunya, que narra a história de um homem no que parece ser o Japão feudal que acorda um dia com uma misteriosa máscara no rosto que lhe dá ordens e lhe garante uma força fora do comum. A narrativa lenta, aliada a um traço bastante interessante, pode fazer com que o leitor deseje que houvesse mais de 24 páginas.
Fechando o volume 1, temos Souls, de Karino Arisa. Aqui, uma mulher encarregada de levar as almas dos mortos tenta fazer com que uma garota que morreu em maus termos com sua mãe encontre a paz. O traço é distinto por ter um acabamento com intenso uso do computador, comparável ao dos capítulos mais recentes de Bastard!!, série de Kazushi Hagiwara publicada no Brasil pela editora Jbc.

Por que Gen?

A Abril, que já falhou com uma série de nome forte, está apostando agora numa franquia sem nome nenhum. O que faz ela pensar que vai dar certo desta vez? Talvez ela tenha percebido alguma falta de exigência por parte do público que compra mangás. Em 2002, as bancas contavam com títulos que tinham muita força na época, como Samurai X, Yu Yu Hakusho, Love Hina e Inu-Yasha por parte da JBC e Dragon Ball, One Piece, Vagabond e Neon Genesis Evangelion por parte da Conrad. Agora, o número de séries nas bancas é bem maior, mas seriam as séries disponíveis ao leitor brasileiro as melhores possíveis? Será que muita coisa não foi licenciada apenas por ser mangá? Se sim, então os leitores estão alimentando o mercado comprando os mangás apenas por serem mangás, independentemente da qualidade?
Agora que a Abril botou o primeiro pé, ainda que de uma maneira estranha, só podemos torcer para que ela traga para cá alguma série pela qual os leitores esperam e torcem. É fato que os leitores entregariam seu dinheiro para manter uma série assim até o fim de sua publicação.

Conclusão

Se você é curioso e não souber o que fazer com o troco que sobrar de Kekkaishi, compre Gen. Se você é mais seletivo e não quer se arriscar, espere para ver se a Abril vai realmente abraçar o mercado de mangás ou deixá-lo de novo. Se essa empreitada não der certo para a editora, ela só pode culpar a si mesma. De novo.

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2 comentários em “Análise: GEN da Editora Abril

  1. Olha, estou comprando “GEN” e discordo da opinião do blog. O mangá veio em um bom momento para o público como eu, que não gosta de mangá emo-shonen como “Soul Eater”, “D Gray Man’ ou “Hikaru no Go” nem d e”shojo-tudo-sempre-tão-igual”, como essa tonelada de shojos que andam disponíveis. As histórias, em especial “Kamen” que disparado é a melhor, me lembram mais os mangás; animes da primeira emtade dos anos 90 do que os atuais. Fico satisfeito de ver uma editora que tenta trazer algo diferente além do “mangá modinha do autor modinha da vez” (como poderíamos classificar “Hikaru no Go”…).
    Se não der certo, não é tanto culpa da editora, e sim do público brasileiro, que só segue modinha, não tem personalidade e sai julgando e desprezando obras pouco conhecidas sem nem conhecê-las melhor.

  2. Hm, não concordo. Gen é legal e apesar de eu não ter lido, sei que é uma antologia parecida com Vertigo onde tem uma série de histórias “adultas”, “seinen”. É uma opção muito boa que faltava aqui no Brasil. Antologia com histórias UNDERGROUNDS? Tem quem seja fã, e tem quem goste. Particularmente gosto, afinal, é do underground que nasceu e nasce alguns movimentos criativos.

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